Meu pai e eu!
Foto on Pinterest Lis Bartalini
Quando criança
eu pedia constantemente pra andar em cima dos ombros de meu pai. Há outras lembranças
dele contando umas poucas histórias antes de dormir. Ele apenas contou uma vez
e foi o suficiente pra que eu pedisse sempre.
Eu via nos
filmes da TV que os bons pais contavam histórias de dormir para seus filhos.
Pra mim pouco me importava às historinhas, porque o que me pedia o coração era
apenas a companhia dele. Sempre vi meus amigos brincar com seus pais, isso me
fez sempre criar pretextos pra fazê-lo copia dos pais alheios.
Nada de
conselhos, nada que se espera de um pai de tevê eu tive. O que me incomodava
era que aparentemente os meus amigos tinham. Eles sempre tiveram um time pra torcer
e aprenderam desde cedo a jogar futebol. Meu pai era seco, não tive a presença do
homem de casa que me contava sobre coisas de menino. Não tinha coragem depois
de certo tempo perguntar sobre garotas e como os sorrisos delas eram divertidos,
e como ficava constrangido quando estava perto delas.
Certa vez
quando ainda fazia o jardim, pintando e cobrindo letras tracejadas, meu pai foi
me buscar na escolinha após a aula. Tinha uma amiguinha que sempre estava
comigo, conversávamos bastante e ela era o mais próximo de uma garota que eu havia
estado antes. Quando estava indo embora com meu pai, a menina veio ao meu encontro
e de supetão me beijou no rosto. Aquilo foi tão constrangedor e ao mesmo tempo
tão bom que se tornou inesquecível até hoje. O máximo de comentário sobre
alguma garota que tive do Sr. Luis foi um sorriso quando ele viu isso tudo
acontecer. Eu era tão criança que ainda não compreendia o beijo da garota e o
sorriso dele.
Eu ainda tenho
a vaga lembrança que meu pai ainda brincou umas poucas vezes comigo, o que mais
me marcou foi a “brincadeira do cinto”. Eu a intendia já meio grandinho, como
aquilo fosse uma brincadeira grosseira, mas mesmo assim superdivertida. Uma
espécie de brincadeira que homens gostam de fazer. Consistia em que alguém iria
esconder o cinto, enquanto os demais ficavam escondidos no quarto. Depois quem
estivesse escondido iria procurar o cinto recebendo pistas como “está quente”
para mais próximo e “estar frio” para mais distante.
Quando alguém
achasse o cinto, todos deveriam correr até o quarto tentando se escapar das
mãos de quem encontrou. A briga ficava mais entre eu e meu irmão mais velho por
três anos de diferença, pois meu pai como maior não levava muito a serio, pois
poderia nos machucar se assim fizesse. Eu ria muito, pra mim aquilo era um
sonho, poucas vezes na vida eu tinha me divertido apenas com ele.
É difícil,
devo dizer, quanto mais me idade avançava, crescia a distância entre mim e ele.
Chorei por diversas vezes só, por querer ter um pai igual aos dos outros. Eu
sabia que tinha gente com pais muito pior do que o meu. Pais que bebiam, pais
que eram grosseiros, pais que nunca existiram. O fato é que esse argumento
nunca preencheu o vazio de uma criança que via seu pai, mas não sabia como o
abraçar, não sabia se podia sorrir ou brincar com ele.
Meu pai nunca
foi um bêbado, ou aparentemente teve casos extraconjugais. Mas eu vi desde
muito cedo as brigas com minha mãe. Corria pra dentro do quarto, me sentia
culpado. Pois achavam que estavam brigando por minha causa. Afinal todas as
vezes que brigava eu o ouvia dizer – Você mima de mais essa criança, é por isso
que ele tem medo de dormir só.
Essa história continua em um próximo post –
Lembrar-se do passado não é fácil, não que as lembranças não venham a cabeça, mas
acontece que lembranças nem sempre são boas.
Natanael Duarte
Natanael Duarte
