segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Lembranças – Parte 1



Meu pai e eu!

Foto on Pinterest  Lis Bartalini

Erguem-se as mãos e brotam-se sorrisos. Uma criança pede os braços do pai, como se fosse conquistar o mundo. Estar nas alturas é a forma mais segura de se aventurar quando estiver perto de quem te protege.
Quando criança eu pedia constantemente pra andar em cima dos ombros de meu pai. Há outras lembranças dele contando umas poucas histórias antes de dormir. Ele apenas contou uma vez e foi o suficiente pra que eu pedisse sempre.
Eu via nos filmes da TV que os bons pais contavam histórias de dormir para seus filhos. Pra mim pouco me importava às historinhas, porque o que me pedia o coração era apenas a companhia dele. Sempre vi meus amigos brincar com seus pais, isso me fez sempre criar pretextos pra fazê-lo copia dos pais alheios.
Nada de conselhos, nada que se espera de um pai de tevê eu tive. O que me incomodava era que aparentemente os meus amigos tinham. Eles sempre tiveram um time pra torcer e aprenderam desde cedo a jogar futebol. Meu pai era seco, não tive a presença do homem de casa que me contava sobre coisas de menino. Não tinha coragem depois de certo tempo perguntar sobre garotas e como os sorrisos delas eram divertidos, e como ficava constrangido quando estava perto delas.
Certa vez quando ainda fazia o jardim, pintando e cobrindo letras tracejadas, meu pai foi me buscar na escolinha após a aula. Tinha uma amiguinha que sempre estava comigo, conversávamos bastante e ela era o mais próximo de uma garota que eu havia estado antes. Quando estava indo embora com meu pai, a menina veio ao meu encontro e de supetão me beijou no rosto. Aquilo foi tão constrangedor e ao mesmo tempo tão bom que se tornou inesquecível até hoje. O máximo de comentário sobre alguma garota que tive do Sr. Luis foi um sorriso quando ele viu isso tudo acontecer. Eu era tão criança que ainda não compreendia o beijo da garota e o sorriso dele.
Eu ainda tenho a vaga lembrança que meu pai ainda brincou umas poucas vezes comigo, o que mais me marcou foi a “brincadeira do cinto”. Eu a intendia já meio grandinho, como aquilo fosse uma brincadeira grosseira, mas mesmo assim superdivertida. Uma espécie de brincadeira que homens gostam de fazer. Consistia em que alguém iria esconder o cinto, enquanto os demais ficavam escondidos no quarto. Depois quem estivesse escondido iria procurar o cinto recebendo pistas como “está quente” para mais próximo e “estar frio” para mais distante.
Quando alguém achasse o cinto, todos deveriam correr até o quarto tentando se escapar das mãos de quem encontrou. A briga ficava mais entre eu e meu irmão mais velho por três anos de diferença, pois meu pai como maior não levava muito a serio, pois poderia nos machucar se assim fizesse. Eu ria muito, pra mim aquilo era um sonho, poucas vezes na vida eu tinha me divertido apenas com ele.
É difícil, devo dizer, quanto mais me idade avançava, crescia a distância entre mim e ele. Chorei por diversas vezes só, por querer ter um pai igual aos dos outros. Eu sabia que tinha gente com pais muito pior do que o meu. Pais que bebiam, pais que eram grosseiros, pais que nunca existiram. O fato é que esse argumento nunca preencheu o vazio de uma criança que via seu pai, mas não sabia como o abraçar, não sabia se podia sorrir ou brincar com ele.
Meu pai nunca foi um bêbado, ou aparentemente teve casos extraconjugais. Mas eu vi desde muito cedo as brigas com minha mãe. Corria pra dentro do quarto, me sentia culpado. Pois achavam que estavam brigando por minha causa. Afinal todas as vezes que brigava eu o ouvia dizer – Você mima de mais essa criança, é por isso que ele tem medo de dormir só.

Essa história continua em um próximo post – Lembrar-se do passado não é fácil, não que as lembranças não venham a cabeça, mas acontece que lembranças nem sempre são boas.

Natanael Duarte